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O sertão ... tão belo, tão maltratado


Já deve ter acontecido com muita gente partir para uma viagem com o coração apertado, cheio de expectativas de conhecer um novo lugar, aquela festa conhecida que o amigo foi e recomendou ...

Eu, que adoro o Nordeste, a culinária nordestina, o povo nordestino, as festas nordestinas, há muito planejava conhecer Campina Grande, local do “maior São João do Mundo”. Vale registrar que aqui na região a gente logo percebe uma salutar rivalidade regional entre os festejos de Caruaru, em Pernambuco, o de Mossoró, no Rio Grande do Norte, e o de Campina Grande. Não é à toa que o compositor e poeta paraibano Antonio Barros Silva logo avisou: “O forró daqui é melhor do que o teu. O sanfoneiro é muito melhor ...”

Campina Grande é uma cidade agradável, a festa é maravilhosa, mas enquanto tem gente que se atira no forró e em tudo a que tem direito numa festa desse porte, não perco a mania de conhecer os arredores, as outras atrações turísticas da região. E de bater o ponto no Museu do Algodão e no Museu de Arte Popular (obra de Niemeyer), que equilibra a tradição e o talento do mestre em forma de três pandeiros sobre o Açude Velho.

Dá uma alegria danada visitar o museu e ver retratada a história da Paraíba em forma de música, artesanato e literatura de cordel. Veja o vídeo: https://goo.gl/ZYJNGa

O gosto pela história nos levou a Ingá, município da região metropolitana de Campina Grande, famoso pelas suas pedras pintadas, resquícios de um período muito anterior à chegada dos portugueses no Brasil. Vale a visita.

Há uma série de teorias sobre as curiosas inscrições rupestres incrustadas na pedra do Ingá, inclusive que elas teriam sido feitas por habitantes de outro planeta. Esse sinal forte da presença humana pré-histórica ou extraterrestre(!) em pleno sertão impacta o visitante.

Mas o trajeto para o sítio histórico faz aguçar outros sentidos, mas de forma não agradável. E como diz uma canção conhecida, “dá uma tristeza danada” perceber um detalhe, tanto na meio urbano quanto no local: aparentemente desprovida de tratamento de esgoto, a pequena cidade vai mutilando, aos poucos, o rio Bacamarte, e as consequências disso, literalmente, cheiram mal. A cidade passa por obras de canalização do esgoto, mas não há uma só referência a tratamento dos dejetos.

Vejo aqui na internet, em um projeto publicado em 2013 na Revista Jurídica do Unib – Instituto Universitário Brasileiro intitulado “Diagnóstico Ambiental e Social do rio Bacamarte”(http://goo.gl/MrtCvf) que a rede de esgotamento sanitário, à época, estava abaixo dos 20%, o tratamento de águas residuárias inexistente e a coleta de resíduos sólidos desestruturada. O estudo aponta que o rio Bacamarte drena terras dos municípios de Lagoa Seca, Massaranduba, Riachão dos Bacamarte, Ingá, Mogeiro e parte de Campina Grande.

Há outros detalhes interessantes sobre o rio no blog “Retalhos Históricos de Campina Grande” (http://goo.gl/KVO76D). O autor do post, Vanderley de Brito, relata, inclusive, uma busca à nascente do Bacamarte.

Daí a gente conversa com os moradores de Ingá e percebe a tal “tristeza danada”: o banho de rio, tanto no local do sítio histórico, quanto nos arredores da cidade, ficou no passado. Itacoatiara, em tupi guarani, significa “pedra pintada”. Se nada for feito, de que cor se pinta o futuro do rio Bacamarte e, consequentemente, de todo esse patrimônio?

O balanço da viagem é positivo, mas fica a tal "tristeza danada" de ver o sertão tão maltratado. Tão belo, tão maltratado ...

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