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Acari: "um bom lugar", um encontro com a história e um modo de vida no Seridó


Acauã é uma ave de rapina conhecida pelo canto e por se alimentar de serpentes. Sua ligação com o regime de pouca chuva do semi-árido nordestino está inserida no imaginário popular. “Na alegria do inverno, canta sapo, gia e rã, mas na tristeza da seca, só se ouve acauã”, diz um dos versos de Acauã, de Zé Dantas, eternizado por Luiz Gonzaga.Acauã é também o nome de um rio com 121 km de extensão que corta dois estados do Nordeste. O nome técnico é rio de descarga rápida. Com nascente na Serra da Borborema, na Paraíba, o Acauã desce ligeiro se espremendo entre rochas nuas e colinas para servir ao homem do interior em uma série de açudes e represas. O mais conhecido é uma imensa construção de ferro e cimento erguida na cidade de Acari, com capacidade de 44 milhões de metros cúbicos de água, completamente seco depois de 60 anos de sua inauguração.

O Gargalheiras começou a ser construído em 1921, (foto acima, extraída de http://eduardosilvaacari.blogspot.com.br) no governo de Epitácio Pessoa, mas só foi concluído em 1959, quase 40 anos depois, já no governo de Juscelino Kubitschek. A represa ganhou o nome de Eurico Gaspar Dutra por ter sido ele o presidente responsável pela retomada da obra, em 1949. Atualmente, aproveitando o regime de pouca chuva, o açude passa por reformas estruturais na sua parede de 25 metros de altura.

Não troco o Seridó por nada desse mundo

Mesmo seco, o Gargalheiras acaba recebendo quase o mesmo número de visitantes que atrai quando sangra sobre suas comportas, o que aconteceu pela última vez em 2011. “Quem mora aqui não deixa de vir. Quem vem de fora vem para ver o açude seco desse jeito. É triste, mas é culpa do homem mesmo”, diz o comerciante Manoel Martins da Silva Filho, que há 15 anos explora um bar às margens do açude. Manoel lembra que o Gargalheiras já vinha dando sinais de que secaria completamente. Apesar disso, foi uma surpresa. “Muito triste ver o Gargalheiras assim, mas é a vida, né?”

Complementando a renda da família com outra profissão – “eu também trabalho com a parte de desmonte de rocha” – Manoel (foto abaixo) não vê dificuldades nessa realidade e diz que não troca o Seridó “por nada desse mundo”. E que, apesar de tudo, Acari “é um bom lugar pra morar. Um pouco de sossego, um pouco de tudo. É um bom lugar”.

Foi a fartura do peixe acari nas águas do rio Acauã que atraiu os índios cariris, que deram nome ao lugar. A fartura acabou. Seco, o Gargalheiras altera a rotina de centenas de pessoas que vivem da pesca. Duas vezes por semana, o pescador Francisco de Assis Moraes de Santos pilota sua pequena motocicleta até o açude Riacho do Meio, em Jardim do Seridó, 30 km distante de Acari. Mesmo por lá, a fartura já não é a mesma. “Só dá tilápia e curimatã”, explica: 20 quilos a cada viagem.

“Aqui (diz, apontando para o Gargalheiras) tinha tilápia, curimatã, tucunaré, piau preto, pescadinha a gente pegava no anzol”. Assim como o outro Manoel, o experiente pescador não culpa a natureza. “Quando tinha peixe por aqui, eles não deixavam crescer. Quem destruiu a natureza fomos nós. Uns pagam pelos outros”, avalia.

Apesar das últimas chuvas na região, relatório do Instituto de Gestão das Águas do Rio Grande do Norte (IGARN) emitido em 16 de abril aponta que o reservatório Marechal Dutra, popularmente conhecido como Gargalheiras, em Acari, permanece em volume morto, com 22.943 mil metros cúbicos, ou 0,05% da sua capacidade total, de 44,421 milhões de m³.

A mais limpa do Brasil

No coração do Seridó oriental, surge a cidade mais limpa do Brasil, um título que ganhou nos anos 1970 e até hoje enche de orgulho os moradores de Acari que, desmembrada do município de Caicó, completou 185 anos de emancipação política no dia 11 de abril. Num passeio entre as ruas e pequenas vilas de casas centenárias de Acari, surge logo um bom papo com essa gente simples e acolhedora da cidade.

Acari não é só o Gargalheiras, como nos conta o radialista Nelter Medeiros, morador do local. Aqui, o visitante pode conhecer a arquitetura barroca da Igreja do Rosário (foto acima), construída em 1737, que foi a matriz de Nossa Senhora da Guia até 1867. Pode conhecer também o prédio em estilo eclético da matriz atual (foto principal). Mais: o Museu do Sertanejo (foto abaixo), um prédio de 1897 em estilo neoclássico que hoje abriga boa parte da história da economia do município. E o Marco da Paz, um monumento idealizado por um italiano em homenagem ao fim da Segunda Guerra Mundial.

Viajar para o interior e conhecer a rotina das cidades, das comunidades tradicionais, é descobrir um novo mundo. No Nordeste, esse novo mundo é comumente chamado de sertão. Geograficamente, Acari nem sertão é: Acari é Seridó. Mas como nos ensina o mestre Guimarães Rosa, “o sertão é sem lugar. Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar”.


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