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“O Seridó é um estado de espírito”. Janduhi Medeiros e a fascinante história dos judeus no Nordeste


O poeta e escritor Janduhi Medeiros anuncia dois novos projetos, um livro de poemas que já tem nome: Antes da crônica, um verso. E outro romance, este sobre a importância do circo na educação das pessoas e a destruição do mundo do picadeiro pela televisão. Mas os olhos do poeta ganham um brilho especial quando a conversa pende para uma parte do mapa do Rio Grande do Norte, fronteira com a Paraíba. “O Seridó é um estado de espírito”, define.

Jandhui pesquisou profundamente como os judeus chegaram ao interior do Rio Grande do Norte, particularmente no Seridó. Ao contrário do que se pensa, grande parte dos colonos que vieram de Portugal para o Brasil não eram degredados por crimes lá cometidos, mas por perseguição religiosa, quando explode na Europa a Inquisição, sobretudo na Espanha e Portugal. “E o que consistia a Inquisição? Caçar os judeus, porque os judeus eram hereges”, completa.

Advogado, 61 anos, servidor aposentado do Branco do Brasil, pós-graduado em História, Janduhi Medeiros de Sousa e Silva nasceu em Ouro Branco (RN). “Eu sou da Terra dos Tapuias, no sertão do Seridó. Eu nasci em Ouro Branco, bem pertinho de Caicó”, resume o poeta. É filho de família numerosa, com 11 irmãos, segundo ele uma tradição do Seridó. “Família grande dá conforto, dá carinho. É como se fosse uma corrente”, explica. “Uma festa de uma família num alpendre no Seridó e a coisa mais linda”, completa.

O pai, falecido em 1991, ex-combatente na Segunda Guerra Mundial, participou de duas batalhas na Itália. Em função dessa condição de ex-soldado, trouxe a família para morar em Parnamirim, no início dos anos 70. Janduhi chegou à cidade Trampolim da Vitória ainda adolescente. Foi operário de fábrica, serviu o Exército e mais tarde foi morar com um irmão, em Recife. O tempo que morou na capital Pernambucana Recife despertou no jovem Janduhi o gosto pelo debate cultural, coisa que não havia na pequena Parnamirim: teatro, ópera, orquestras sinfônicas, palestras com Ariano Suassuna ...

Aos 20 anos, prestou vestibular e foi aprovado em Direito, na Paraíba, onde também começou a carreira no Banco do Brasil. Foi durante esse período que começou a despertar para a questão das origens da ocupação judaica no Seridó. Depois de aposentado, aprofundou as pesquisas sobre o assunto. Após “cinco ou seis anos” de estudo, surgia um de seus quatro livros publicados: A Pedra da Cruz.

“Transformei isso (a pesquisa) num hobby”, conta. Foi quando descobriu que os hábitos das famílias do sertão tinham relação direta com a cultura judaica. “Por exemplo: enterrar a pessoa na rede ao invés de suntuosos caixões”. Também as feiras dos sábados, herança de cerca de três mil anos das comunidades judaicas, em que a atividade econômica superou a atividade religiosa.

O Cristão Novo

Segundo Jandhui, no período da Inquisição, algo em torno de 20% da população portuguesa tinha de origem judaica. Mas o rei não tinha interesse em caçar esse povo, devido à questão econômica, pois eles movimentavam a economia do reino. Mas ele sofria pressão. É quando surge a figura do Cristão convertido. “O Cristão Novo era uma forma de legalizar alguns judeus”, explica. Alguns não toparam a conversão e chega o momento em que Portugal teve que caçar esses judeus. Mesmo porque, por outro lado, a Igreja dividia o confisco com a Coroa. “Então, para muitos judeus, Portugal não aplicava a pena de morte. Aplicava a pena do degredo”. E assim, muitos desses colonos vieram para o Brasil oficialmente e clandestinamente, pois Portugal precisava, também, povoar as colônias. E aqui eles tiveram a relativa liberdade de praticar sua própria religião, nas pequenas comunidades que se formavam, explica.

Muitos deles acumularam riqueza, sobretudo em Salvador e Recife. Ocorre que, em 1598, o Tribunal do Santo Ofício chega ao Brasil, de olho nesses judeus ricos. Muitos foram processados por motivação religiosa. “Os que tinham mais dinheiro fugiram para Amsterdã, pois a Holanda era um refúgio na Europa para os judeus. E o que não tinham, ou pouco tinham, se refugiavam no sertão brasileiro”. Começa, então, uma rica história de ocupação do sertão com a marca da cultura judaica. E o Seridó é o maior exemplo. Isso equivale a mais ou menos 55 cidades, parte no Rio Grande do Norte e parte na Paraíba. E ainda há o caso de cidades que geograficamente não pertencem ao Seridó, mas que culturalmente estão envolvidas nessa cultura seridoense, caso de São Rafael (RN), por exemplo.

Jandhui cita pesquisas que apontam que 70% dos colonos que vieram de Portugal e da Espanha para o Brasil de 1500 a 1850 eram de origem judaica. Esse percentual, no Nordeste, cresce para 80%. No sertão, cresce para 90%. E no Seridó esse percentual chega a 95%. “O Seridó era uma colônia judaica. Eles chamavam ‘O Junco do Seridó’. Junco é uma palavra hebraica e Seridó não é uma palavra indígena. É uma palavra hebraica: seritó = a terra de repouso. A terra de acolhimento. E quem vai ao Seridó tem essa sensação”, completa.

Holandeses no Seridó

Isso vai de 1548 a 1860, quando acaba oficialmente a Inquisição. Esse período inicial coincide, ainda, com a expulsão dos holandeses de Recife e parte desses holandeses, também judeus, buscam refúgio no interior. Segundo Janduhi, é possível esse cruzamento, mas a ocupação holandesa por si só também é um traço da forte presença da comunidade judaica no Brasil. “Recife é a cidade mais judaica do Brasil. Muitos comparam a arquitetura de Recife à de Amsterdã. E à de Veneza, pela questão dos rios”, explica. “Recife tem a primeira sinagoga das Américas, na antiga Rua dos Judeus, hoje Rua Bom Jesus. Quando houve a expulsão dos holandeses, ocorreu uma negociação e Portugal deu um tempo para os holandeses deixarem Recife. Mas só saiu quem tinha recurso. Quem não tinha, ou ficou pelo interior de Pernambuco ou veio para o Seridó, que era uma colônia já conhecida”.

Janduhi cita mais costumes herdados dos judeus. A pedra na cruz (nome do romance de Janduhi), pois o judeu não coloca flores na cruz, coloca pedras, como sinal de união com o morto. O morto ser enterrado com mortalha. “Quem viu o velório de Joao Paulo II (papa falecido em 2005) ... foi numa padiola, não foi num caixão. Ele era polonês. Isso é uma indicação de origem judaica”, explica.

O escritor enumera, ainda, a cultura da criação do gado. Toda a atividade cultural, a culinária. “Você só encontra filhós com mel no Seridó. É uma iguaria para ocasiões especiais, com algum laço religioso. Hoje se serve o filhós com mel em qualquer ocasião, mas algumas famílias tradicionais do Seridó fazem o filhós com mel apenas nessas ocasiões”, diz o escritor. A influência prossegue em outros campos culturais. “A música – toda a música ocidental é oriunda da cultura judaica. No Seridó ainda se celebra a missa em latim. Minha mãe cantava em latim”, conta.

A conversa se encaminha para um ponto sobre o qual o poeta gosta de falar: o calor humano no Seridó. “No Seridó as pessoas se conhecem pelo nome do pai. Eu sou conhecido em Ouro Branco como o Janduhi de Jaime, meu pai”, recorda, para em seguida definir o que chama de choque cultural: “No Seridó se pergunta: você é filho de quem? Aqui as pessoas perguntam: você trabalha onde?” “Você já viu dois seridoenses se encontrando? A zoada é grande!!”

Segundo ele, a história do Seridó tem potencial turístico, mas inexplorado. “Imagine criar um museu que relate essa ocupação do Seridó ... Tem sobrados lindos com traços judaicos. Muitos sítios guardam estruturas judaicas”, defende.

Para Janduhi, o RN tem vocação turística, mas alguns agentes públicos “são pessoas de intelectualidade duvidosa, não conhecem a história do estado, a histórias das pessoas. Elas se prendem ao turismo mercantilista”. Segundo ele, as pessoas vão a Paris para conhecer a história da cidade, para conhecer os museus. Natal não tem uma casa cultural que atraia os turistas. “Turismo aqui são as praias ... doar terra pública para o pessoal fazer hotel. Uma coisa que cresce nesse turismo é a prostituição”, critica.

Um pé na poesia, um pé no romance

O primeiro livro de Janduhi é “Carnavais e outros poemas”, escrito em 2003, que ele define como um livro de poesia popular, por não se prender à estética e à métrica e da rima. O segundo, “Mensageiro das Oiticicas”, tem a mesma temática. O terceiro, “Calçada de Bodega”, seguiu o mesmo caminho. E o quarto, “A Pedra da Cruz”, um romance com um pé na história do Seridó. “Eu diria que é um livro de história, mas com uma narração poética, uma crônica poética”, define.

Sobre os novos projetos, ele fala sobre a possibilidade de misturar a crônica e poesia. “Seria o Antes da Crônica, um verso”, explica. “E também já rascunhei alguma coisa, um livro sobre a importância do circo na educação das pessoas e a destruição do circo pela televisão e a degradação humana na comunidade”. Seria que algo que ligasse o circo à dignidade humana e a televisão à violência, à degradação social, referindo-se a uma televisão mercantilista. Mas o escritor já prevê dificuldades na nova empreitada.

Janduhi avalia que a dificuldade de publicar livros no Brasil está relacionada a uma cultura de negação à cultura, como se o conhecimento fosse perigoso. Trata-se de um círculo vicioso.

Dos livros, a conversa pende para o cangaço. “Você já percebeu que os heróis do São João de Mossoró são os cangaceiros?”, questiona. Em Mossoró, por exemplo, há toda uma narrativa de resistência que deixa em aberto essa questão do protagonismo, diz o escritor, citando a narrativa do espetáculo Chuva de Balas no País de Mossoró. Para Janduhi, isso tem uma explicação. “O Estado brasileiro sempre foi muito opressor contra o nordestino, sobretudo o nordestino sertanejo. Então, quando alguém se levanta o Estado, vira herói, mesmo que usando métodos violentos”.

Essa influência é visível nos símbolos institucionais e até na vestimenta do cangaceiro, explica. “A estrutura estética da cultura do sertanejo sempre remete a um símbolo de Lampião. Todos os cartazes, sem exceção, qualquer símbolo de marketing de secretarias de cultura, de Estado ou Município, todos os cartazes têm algum símbolo que remete ao cangaço e a Lampião. Seja um chapéu de couro, seja uma peixeira, embora que uma caricatura disso. Tanto a estética do vestuário, quanto a estética da dança, da música ... E a estética de Lampião é uma estética judaica. Aquelas cartucheiras remetem ao Escudo de Davi. O Escudo de Davi eram dois triângulos de couro no peito, que depois se transformou simbolicamente na estrela de seis pontas”.


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